Nabokov

6 Maio, 2006

Eu não sabia se existia. Simplesmente digitei e apareceu. Não é tão bom assim, mas é melhor que nada, e parece completo. Tenho-o lido muito ultimamente; mal acabei Pnin, peguei A pessoa em questão (no original, Speak, memory). A leitura é vagarosa, há muito o que apreciar e muito em que pensar; pelas imperfeições da tradução se adivinha uma dose ainda maior de humor negro e de ironia – pena que eu não tenha pernas para ler no original.

Ezra Farthing & The Merréis

21 Abril, 2006
O sistema monetário inglês antes da decimalização era verdadeiramente simples, e de uma lógica cristalina. A moeda de valor mais baixo era o farthing (uma tradução literal de “farthing” é “coisa distante”; suponho que se referiam ao valor): quatro deles formavam um penny. Consta que começaram a circular em 1279, e que pararam em 1956. O penny, reformado em 1968, circula desde data desconhecida, mas certamente anterior a 886, porque foi nesse ano que o dividiram pela metade, criando o half-penny, que correspondia, ora ora, a meio pêni ou a dois farthings, e que viveu até 1967. O plural de penny é pence e não pennies; isso era importante o bastante para ser matéria de prova quando eu estava na quinta série, em 1978. Em 1511 começou a circular uma moeda de três pence de prata, que durou até 1944, e cujo nome era silver threepence; não sei se a mesma moeda era a que chamavam thrupenny bit. Antes disso, em 1279, entrou no meio uma moeda de 4 pence chamada groat, que viveu até 1888. De 1550 a 1967 foi o tempo de vida do famoso sixpence, dispensa tradução, também chamado de tanner. O shilling ou xelim, também chamado de bob, floresceu e secou no período entre 1548 e 1967, e valia 12 pence (ou 2 sixpence, ou 3 groats, ou 4 silver threepence, ou 24 meios pênis, ou 48 farthings). O florim, de vida curta (1849 a 1967) valia 2 xelins (façam as contas quanto ao resto). Cinco xelins perfaziam, além daquilo a que as contas os levarem, uma coroa; a meia coroa, portanto, valia dois xelins e meio, ou um florim e seis pence, ou 30 pence. A meia-coroa viveu de 1526 a 1967; a coroa inteira, nascida em 1544, é mantida em animação suspensa até hoje, ressuscitando aqui e ali em comemorações (não sei quanto valeria hoje). O nobel (nada a ver com o prêmio), cuja era foi de 1464 a 1642, valia 6 xelins e 8 pence (valor não mais estranho do que o sistema inteiro). O soberano, ou libra, ou libra esterlina, valia vinte xelins, ou quatro coroas, ou 240 pence, ou 960 farthings. Meio soberano, portanto, valia 10 xelins e conseguintes subdivisões. E o guinéu valia uma libra e um xelim. As libras ninguém sabe quando exatamente começaram a circular (chuta-se o ano 775); os guinéus em forma de moeda viveram entre 1663 e 1813, e eram de ouro. É claro que, se pararam de cunhar a moeda, a noção de guinéu permaneceu, sedutora.

Já ouvi dizer que nem todas as conversões eram livres (por exemplo: uma libra equivalia a 240 pence, mas seria incerto que, ao chegar ao banco com esse montão de moedas, o sujeito as pudesse trocar por um soberano). Não achei sinal dessa restrição na breve pesquisa que fiz para escrever isto aqui.

A maneira de notar o dinheiro também era diferentona. Espiem:

1/4d = 1 farthing;
1/2d = 1 half penny;
1d = 1 penny;
3d = 1 silver threepence ou 1 thrupenny bit;
4d = 1 groat;
6d = 1 sixpence;
1/- = 1 xelim ou 1 bob;
2/- = 1 florim ou 2 xelins;
2/6 = 1 meia coroa, ou 2 xelins e 6 pence;
5/- = 1 coroa, ou 5 xelins;
10/- = 1 meio soberano, ou 2 coroas, ou 10 xelins;
20/- = 1 libra, ou 1 soberano;
21/- = 1 guinéu.

Isso quer dizer, por exemplo, que a etiqueta “10/6” no chapéu do Chapeleiro Louco, de Alice no País do Espelho, indicava que o tal chapéu custava 2 coroas e 6 pence – caríssimo portanto (na época em que o livro foi escrito, isso era mais que o salário semanal de uma preceptora, que ganhava, em média, 20 libras por ano).

O chamado padrão monetário brasileiro parece com tudo, menos com um padrão. A história da grana aqui é bem mais confusa que na Inglaterra, e não completamente reconstituível. O problema está no período colonial: o que exatamente passou por padrão no Brasil nesse período é uma confusão dos diabos, que estou morrendo de preguiça de resumir aqui; os interessados, por favor, cliquem neste linque e verifiquem por si mesmos, e entendam o que puderem.

O mil-réis (pronuncia-se merréis) foi oficialmente instituído em oito de outubro de 1833, pela Lei nº 59, e dois mil e quinhentos réis, notados Rs2$500, valia 125 gramas de ouro de 22 quilates. Viveu 109 anos; consta que nos seus primeiros 56 anos pedeu apenas 50% de seu valor, menos de 1% ao ano; a República o sangrou muito mais fundo.

Dia primeiro de novembro de 1942 nasceu o cruzeiro, cuja equivalência era mil réis: se vivo, seria ligeiramente mais novo que Mr. Mick Jagger, com seus 64 anos. O cruzeiro deu entrada na UTI em dois de dezembro de 1964, aos 22 anos, quando lhe extinguiram os centavos. Em treze de fevereiro de 1967, após cirurgia mediúnica, foi reapresentado à família com o nome de cruzeiro novo, e três zeros mais magro; como toda a gente desconfiou que era o mesmo velho cruzeiro pitanguyzado, em quinze de maio de 1970 a turma admitiu e ele voltou a ser chamado de cruzeiro, desta vez mantendo os centavos anteriormente reconquistados. Em todo o caso, os centavos se foram de vez em dezesseis de agosto de 1984; depauperado, o cruzeiro faleceu de vez aos 43 anos, em vinte e oito de fevereiro de 1986, quando nasceu o cruzado, mais três zeros fora. Durou menos que o florim, a mais efêmera das moedas inglesas, como, de resto, os longevos merréis também viveram menos que ela.

O cruzado, pobre coitado, também resistiu pouco (genética ruim): menos de três anos. Em dezesseis de janeiro de 1989 subiu ao trono o cruzado novo, também emagrecido de três zeros. Esse, coitado, foi quase um natimorto: baixou à tumba em dezesseis de março de 1990, com a assunção do cruzeiro (não era aquele original, mas um descedente), sem corte de zeros – muitos desconfiam de que era o mesmo cara, disfarçado. Agüentou-se três anos e meio. Em primeiro de agosto de 1993, decepado de mais uma trinca de ós, veio o cruzeiro real, que, tênue como um poeminha vagabundo, feneceu aos meros onze meses de vida: em primeiro de julho de 1994 veio o real. Cortando bem mais que três zeros: a conversão foi na base de 1 para 2750.

A honestidade, essa senhora sorrateira e bem ausente desta história, manda que se diga que o reinado do cruzeiro real foi de fancaria. Quem dominou mesmo as ações foi um vizir chamado Urvi, ou URV, que se mantinha forte à custa do sangue do outro. Toda a gente mais velha sabe que o real é ele: mudou de nome, como os papas, quando chegou lá. O real tem já doze anos e vem se agüentando; mas não deixa de ser engraçado que nossa primeira moeda aparentemente estável em quase setenta anos seja a mesma do Império, imprescindivelmente amputada de três zeros. Não sei como foi que a Monarquia não passou no plebiscito.

Mas, enfim, tantas assunções monetárias deixam, entre outras, mais esta suspeita: o catolicismo anda morrendo por aqui porque os sinos, admitamos, não sabem mais por quem dobrar.

De 1833 para cá, o dinheiro foi assim notado:

Rs1$000 = mil réis;
Cr$ 1,00 = um cruzeiro;
Cr$ 1 = um cruzeiro sem centavos;
NCr$ 1,00 = um cruzeiro novo;
Cr$ 1,00 = um cruzeiro (de novo com centavos);
Cr$ 1 = um cruzeiro (de novo sem centavos);
Cz$ 1,00 = um cruzado;
NCz$ 1,00 = um cruzado novo;
Cr$ 1,00 = a volta do cruzeiro, com centavos;
CR$ 1,00 = um cruzeiro real (o érre é maiúsculo, viram?);
R$ 1,00 = um real.

Dúvidas, oh, dúvidas

9 Abril, 2006
Minha mãe, senhora de 72 anos, tem um método muito simples para avaliar políticos: se está no governo, é uma besta, ladrão, picareta e salafrário; se está na oposição, é uma besta, ladrão, picareta e salafrário na fila. A velha odiava Collor, Itamar e FHC; atualmente, odeia o Lula. A velha considera legítimo um único político: o late JK, que ela conheceu em pessoa, nalgum ponto dos anos 50.

(Há gente que nós conhecemos e que não nos conhece necessariamente. Minha mãe conheceu JK, mas evidentemente JK não a conheceu. Deve tê-la tratado com a untuosidade dos políticos, talvez a tenha chamado pelo nome ou elogiado seu penteado, de onde ela saiu pensando algo como “puxa, que humilde, que atencioso é esse gran uomo”; minha mulher pensou exatamente isso quando conheceu Ulysses Guimarães, vulgo Peixuxa, cf. Raul Seixas.)

Minha mãe não é lá muito articulada. Quando a gente pergunta por que é que ela acha que fulano é besta, ladrão, picareta e salafrário, ela se irrita e responde:

– Olha só a cara dessa marmota!

Não é estetocracia; se botassem lá o Mastroianni (que ela ama), viraria automaticamente uma marmota também. O poder, para ela, marmoteia.

Isto tudo para dizer o seguinte: o irracional manda muito mais na gente do que pensamos; e nos brasileiros, particularmente, ele reina forte. Birras inexplicáveis, bem como simpatias inexplicáveis, governam nossas ações muito mais do que queremos ou admitimos.

Considero Anthony Garotinho a epítome do sebo. Quando ouço a voz dele, penso imediatamente num vendedor das Casas Bahia que fala de uma mobília vagabunda como se fosse principesca, e de tal maneira que nos deixa com a convicção de que se não comprarmos aquele guarda comida ordinário é porque há algo em nossa cabeça, ou no nosso coração, que não funciona direito. Que desprezamos seu lindo armário de papelão porque somos ou burros ou imorais. Isso muito me enfeza. Isso muito me repugna. Isso me faz pensar que mesmo Lula Babá e os onze mil ladrões são preferíveis a ele.

Então me lembro que o relatório dessa CPI aí, creio que a dos correios, deu que mensalão + valérioduto drenaram dois bilhões de reais. Melhor negritar: dois bilhões de reais. Se a gente se lembrar que a conta conhecida dos roubos do Lalau (170 milhões) + Maluf (400 milhões) + Collor/PC (30 milhões) dá meros 30% do que o PT roubou (botando esses renomados ladrões na categoria do mero diletantismo), sou obrigado a me perguntar: será que o Garotinho é mesmo pior do que isso?

Góngora

2 Abril, 2006

La dulce boca que a gustar convida
un humor entre perlas distilado
y a no invidiar aquel licor sagrado
que a Jupiter ministra el garzón de Ida,

amantes no toquéis si queréis vida:
porque entre un labio y otro colorado
Amor está de su veneno armado
cual entre flor y flor serpe escondida.

No os engañen las rosas, que a la Aurora
diréis que, aljofaradas y olorosas,
se le cayeron del purpúreo seno;

manzanas son de Tántalo, y no rosas,
que después huyen de el que incitan hora
y solo del Amor queda el veneno.

Dom Luís ganhou má fama com o correr dos anos: chamar um poeta de gongórico chegou a ser um pouquinho pior que chamá-lo de filho da puta. Enfim, ser espanhol é concorrer para uma certa má vontade do mundo. Mas é bonito; lido em voz alta, acompanhado de petelecos no nariz (ave, professor) e quem sabe repuxando as rendinhas dos punhos, é bom; soa borbulhante. A questão da virilidade permanece, mas não é essencial. Desse bonito soneto há outras versões, diferentemente pontuadas, com outras grafias em algumas palavras, e até palavrinhas mudadas; circulavam manuscritos pela Corte, já viu a dureza. Ah, tão bonitinho.

Pierre de Ronsard

18 Março, 2006
Soneto a Helena

Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela,
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.

E entre as servas então não há de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Ao nome de Ronsard não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.

Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,

Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.

Não sei se esses belos versos abriram ao bom Pierre as possibilidades de Helena, e talvez a ele lhe faltasse um pouco da água suja da humildade humana. Não importa. A tradução é de Guilherme de Almeida. Atualizei a ortografia (meu exemplar é velho, e além disso Guilherme o verteu quinhentistamente). Acho bom o serviço; o último verso especialmente, que em francês vai assim:

Cueillez dès auiordhuy les roses de la vie.

Pequeno conto miserável

10 Março, 2006
O namoro da rica com o pobre acabou no dia em que ele foi à casa dela. Entrou no toalete e não quis sair mais:

– Seu banheiro é melhor do que a minha vida.

Skindô, skindô

25 Fevereiro, 2006

– Trio eléctrico? Tuffy, Grané e Del Debbio!

I often think I’m him

12 Fevereiro, 2006

Cinema não é arte, mas às vezes trisca. E ainda não vi um filme ruim dos Coen. O do Barton aí em cima, por exemplo, é um filme excelente sobre como a pretensão, ainda que pequena, pode ser completamente pisoteada e reduzida ao maior ridículo – com a ajuda inestimável do pretensioso, claro. É duro descobrir que aquilo que achamos que temos de especial não é especial porra nenhuma, e que nossa originalidade já foi todinha mapeada e é uma estrada onde em geral a paisagem, de tão manjada, mata de tédio.

Autocrítica sincera tem que dar em suicídio.

Breve reflexão irresponsável dans l’amour

5 Fevereiro, 2006
Paulo Francis, citando, creio, La Rochefoucauld: “Se não se falasse tanto em amor, muito pouca gente se apaixonaria”.

Num livrinho muito bacana, “A dupla chama”, Octavio Paz fala que a história de Eros e Psiquê é a primeira em que alguém se sente atraído pela alma do outro: antes disso, “amor” era sinônimo de satisfação sexual – ou, se não de satisfação, pelo menos de alguma consumação. Eu te amo = eu te como/eu dou para você. A idéia de que minha amada me causasse mais que tesão era tremendamente nova.

E me parece que está ficando velha. Acho que vivemos, um pouco mais escancaradamente, a contradição entre a idéia romântica de amor que começou ali em Apuleio e o hedonismo muito moderno do “deu tesão, tô indo”.

Quer dizer: a gente se apaixona menos e trepa mais; mas trepa alegando paixão. Como o vejo, é um problema. Quem sabe se La Rochefoucauld não triunfará, e de futuro trepemos ainda mais, conscientes de que o amor “pela alma” é pouco ou nenhum?

O irrealizável

2 Janeiro, 2006
Algumas vezes tentei guardar na memória um dia de ano novo, mas nunca consegui. Ontem, por exemplo, choveu; mas sei que só me lembrarei disso em junho se, por qualquer razão improvável, eu voltar a ler este post.

Não me lembro do dia de ano novo de 2005, embora me lembre da noite do réveillon, quando vimos fogos queimando esparsamente ao longo da Avenida Jacu Pêssego e ela, a avenida, me pareceu melancólica e solitária, sem passantes.

Não me lembro do primeiro dia do milênio, 01/01/2001. Seria um dia a lembrar, não é? Mesmo arbitrário, mesmo sendo verdade que todo dia alguma coisa completa um milênio ou mais.

Que lugar-comum, esse da fugacidade da memória. Ultimamente dei para pensar que minha morte, quando vier, tirará do mundo de vez aquelas coisas que armazeno. Quis ter pena do mundo, coitado dele, perder tudo o que guardo!, mas, claro, tenho pena é de mim – não quero morrer nunca.

Não quero que aquele sábado dourado de 1979, na rua Maria Marcolina, desapareça comigo, mesmo não sendo útil, comunicável ou lembrado por mais ninguém. Não quero que tudo o que minha carne e meus sentidos ainda são capazes de evocar se esfumace junto com a minha consciência.

Compreendo que muitos também pensem isso. Compreendo que muitos se tornem religiosos por causa disso. Não sou, nem posso ser, religioso: o que eu quero é o absurdo dos absurdos, o milagre laico.


Design a site like this with WordPress.com
Iniciar